“Não é tv, é um texto” 2 – By Felipe Kunitzki
por: alexpaim | em: TextosEu entrando num palco de cortinas vermelhas fechadas e um único foco de luz sobre o microfone enquanto uma voz de narrador de desenho animado diz:
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“A única coisa que me impede de ser professor” por Felipe Kusnitzki.
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Eu bato no microfone para ver se ele está ligado, o que gera uma desagradável microfonia.
Daí começo a falar, com a câmera dando um zoom in na minha cara:
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A única coisa que me impede de ser professor é que eu seria um daqueles professores que usa o microfone da Madonna.
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A câmera, agora em um plano super close-up, revela que estou usando um microfone da Madonna.
Zoom out durante a fala abaixo:
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Ninguém respeita professor que usa o microfone da Madonna.
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A câmera revela que agora me encontro em uma sala de aula em que os alunos fazem baderna bagunça.
A frase abaixo é dita em Voice-Over ao mesmo tempo em que faço a ação:
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Para chamar a atenção da turma, teria que levar o microfone à altura da bunda e peidar.
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A turma para a baderna instantaneamente. Freeze. V.O. :
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E eu não gostaria de continuar usando um microfone peidado.
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Plano americano. Eu de costas prostrado frente a uma prateleira de supermercado onde vários microfones estão expostos. V.O. :
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Mas não teria dinheiro para comprar um novo.
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Plano americano. Eu, novamente de costas, abrindo a porta de casa, no mesmo enquadramento da cena anterior. V.O. :
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Então, iria chegar em casa(…)
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Corte rápido. Plano americano.
Eu, pelado, no box, chorando agachado e abraçando as minhas pernas enquanto a água do chuveiro cai em cima de mim. V.O. :
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(…)e chorar agachado no box – com a água do chuveiro ligada, claro, a fim de que meus filhos não escutassem.
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A sala de aula é mostrada no mesmo enquadramento que da vez anterior.
A única diferença é que agora apenas os alunos se encontram na sala. V.O. :
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Os meus alunos não sentiriam minha falta no dia seguinte.
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Imagem (clichê) sobreposta: Um calendário com as folhas sendo arrancadas pelo vento. V.O. :
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Um mês depois e meus alunos ainda não dariam pela minha ausência.
Meus filhos morreriam de fome com o pai desempregado. Todos os 43.
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Cenas de diversos ambientes do meu pequeno e depredado quitinete habitado por 43 gatos de diferentes cores e tamanhos. V.O. :
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E por filhos, eu digo gatos, porque é assim que eu os chamaria.
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Os mesmos enquadramentos das cenas dos diversos ambientes meu pequeno e depredado quitinete, agora sem gatos. V.O. :
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Um mês depois e meus filhos estariam todos mortos de fome.
Não porque gatos conseguem passar um mês sem comer, mas porque ensinei meus filhos que é feio ver o pai definhando e não fazer nada.
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O mesmo enquadramento da “cena do chuveiro”, só que agora eu não apareço. V.O. :
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Perda de tempo.
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A câmera (estática) filma o chão do box (de cima) revelando os 43 gatos deitados sobre uma enorme poça de sangue que toma conta da cena.
Eu não me encontro lá. V.O.:
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Devia tê-los ensinado que comê-lo é ainda pior do que não fazer nada.
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Corte rápido. A câmera (novamente de cima) filma um pote de ração vazio sobre páginas rasgadas de um livro, fazendo as vezes do que deveria ser jornal. V.O. :
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Mas eles devem ter comido este capítulo do meu livro da Tânia Zagury.
Junto com aquelas provas que meus alunos tinham feito há um mês e três dias atrás e eu ainda não tinha corrigido.
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Zoom out acaba revelando que também coloquei as provas dos meus alunos como jornal pro mijo do gato.
Corte. Voltamos ao palco do começo do texto. Digo:
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E essa é a única coisa que me impede de ser professor.


