
Eu naquela fase que toda criança passa (a de gostar de mármore, granito e manejar máquinas pesadas).
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Se tem uma coisa que eu gosto bastante é essa linha sutil entre o que seria um elogio ao bebê de uma pessoa e a total psicopatia perante o mesmo sendo delineada apenas pela entonação da sua voz.
“Eu quero comer a cara da sua criança”.
Mesmo porque, pensando bem, até quando aquele que elogia o recém-nascido o faz com vozinha de bebê, pode se tratar de um daqueles psicopatas com dupla personalidade que falam com vozinha de bebê.
Mais ou menos por isso que eu não elogio crianças.
O que nos leva a outro ponto: crianças, um pouco mais velhas que um recém-nascido, já tendem a ser malvadas e cheias de si; o que, convenhamos, só piora quando você elogia o que elas fizeram com a massa de modelar como se aquilo realmente não parecesse apenas obra de uma roda de um caminhão desgovernado que bateu num ônibus de uma excursão de idosos pra Águas de Lindóia.
Corta para a velha da excursão para Águas de Lindóia, única sobrevivente, dando depoimento do acidente para um telejornal local, ainda no meio da pista sendo atendida por paramédicos e coberta com um daqueles cobertores de mendigo que todas pessoas que estão sendo atendidas por paramédicos recebem, entremeado por algumas tomadas da massa de modelar aparecendo como um roadkill:
“Eu não sei, só lembro que vi uma bola de massinha no meio da pista. O caminhão passando por cima. As luzes vindo em nossa direção. O horror. O HORROR!”
(as luzes aumentam, formando uma espécie de fade in para o branco, no que eu apareço dizendo:)
Outro dia mesmo, minha prima de seis anos veio aqui em casa e disse:
(corta pra cena – com todas as vozes sendo narradas por mim, inclusive a minha, em um timbre monocórdico)
ISADORA: “Sua televisão é menor que a minha.”
FELIPE: “É? Tá bom.”
ISADORA: “E a minha é de plasma. A sua é de plasma?”
FELIPE: “Não. A minha é de LCD.”
ISADORA: “A de plasma é melhor, né?”
FELIPE: “Não… A de LCD é bem melhor porque foi Deus, com suas próprias mãos, quem fez.”
(corta pra mim, em um cenário de programa infantil de TV comunitária, com um grande livro aberto nas mãos e cercado por crianças sentadas no chão)
O que nos leva, amiguinhos, ao porquê você deve amar crianças: elas não processam ironia.
(sobem os créditos do falso programa infantil, enquanto as luzes baixam e as crianças, fantasiadas como índios, aparecem me espancando e me amarrando numa daquelas “fogueiras de corpo inteiro”).